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Percepção de inflação alta incentiva procura por investimentos atrelados ao IPCA

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11 de setembro de 2020

Pressionada principalmente pelos alimentos, salto da inflação fez crescer entre as pessoas físicas a necessidade de proteção do capital por meio de investimentos de renda fixa

Matéria originalmente publicada no Portal O Estado de S. Paulo

Ernani Fagundes, O Estado de S.Paulo
10 de setembro de 2020

A inflação vista pelo consumidor no grupo alimentação em domicílio, com alta de 1,15% em agosto elevou a atenção das pessoas físicas para investimentos atrelados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), segundo profissionais de renda fixa consultados pelo Estadão/Broadcast.

Na visão da estrategista-chefe da Órama Investimentos, Sandra Blanco, a percepção da inflação pelo consumidor aumenta a preocupação com a proteção do capital, mesmo que, no geral, os efeitos da pandemia sejam desinflacionários nos índices de preços. “O IGP-M já vinha mostrando essa inflação decorrente do câmbio, e muito provavelmente, essa inflação também será repassada para os contratos a partir do segundo trimestre de 2021. Essa é uma inflação que está começando e será uma prévia para um IPCA maior lá na frente”, argumenta.

Mas a estrategista-chefe lembra que a inflação em alimentos é só uma parte da composição dos índices de preços ao consumidor (IPCs) e do IPCA. Na outra ponta, por exemplo, os gastos com Educação recuaram 3,47% ajudando a conter a inflação em 0,22 ponto porcentual no IPCA mensal, que ficou em 0,24% em agosto. “A atividade em serviços está muito fraca, estamos em recessão”, pondera Sandra.

Segundo ela, os investimentos atrelados ao IPCA, por garantirem a inflação mais juros reais sempre foram recomendados aos aplicadores como forma de proteção, mas estavam “esquecidos” até julho. “A inflação estava muito baixa, o juro real não estava tão atraente, agora começou a aparecer taxas melhores”, diz. Sandra afirma que nesse momento, ganham atenção: títulos Tesouro IPCA, fundos de inflação (Ima-B), debêntures incentivadas e fundos imobiliários.

Na visão de Mauro Morelli, estrategista-chefe da Davos Financial Partnership, com essa percepção de inflação no curtíssimo prazo “faz sentido” o comportamento do investidor em buscar proteção para seu poder de compra. “O investimento tem que estar mais relacionado com o objetivo e o prazo de cada um. Olhar só para a inflação pessoal pode ser um erro. Mas a vantagem do investimento atrelado à inflação é que se tem mais um prêmio de risco e investidor ganha um seguro, uma proteção”, argumenta.

Questionado sobre os riscos dessas aplicações, Morelli afirmou que tem o risco fiscal. “Infelizmente, é um risco que existe”, diz. O estrategista engloba nessa categoria as NTN-Bs (Tesouro IPCA), fundos Ima-B e aplicações em crédito privado atreladas ao IPCA. “Nas debêntures incentivadas, no CRA e no CRI ainda tem o benefício fiscal. Não está no cenário, mas mesmo que a inflação dispare, não se vai pagar imposto sobre a inflação”, afirma.

Para André Pimentel, diretor de investimentos da Infinity Asset, a alta dos preços dos alimentos chega mais forte no IPCA, mas por si só, não deveria influenciar na decisão do investidor. “Essa inflação do milho, da soja, das proteínas tem efeito temporário e até cria uma gordura para a meta do Banco Central. Nos serviços, onde o insumo é mão-de-obra, e temos muito desemprego, temos deflação. No geral, a inflação está bem estável”, observa.

Ao mesmo tempo, Pimentel considera que os investimentos atrelados ao IPCA estão sendo mais demandados pelos investidores. “A inflação implícita nas NTN-Bs está baixa. Mas se você considera o risco se consegue capturar o prêmio na curva de juros, isso vale para fundos de inflação (Ima-B) e multimercados de alocação dinâmica”, afirma.

Para Victor Beyrutti, economista da Guide Investimentos, a inflação é percebida pelo consumidor nos preços dos alimentos e da energia. “A gasolina subiu bastante, primeiro por causa do câmbio, e agora, pela recuperação do preço internacional do petróleo. Já a alta dos alimentos é pontual e não deve persistir, nossa projeção para o IPCA é de 2% para este ano”, diz.

Mas questionado sobre a procura por investimentos atrelados aos índices de preços, Beyrutti responde que as taxas estão mais atrativas por causa do risco fiscal embutido nos preços dos títulos públicos. “No asset allocation, há uma troca de títulos prefixados para papéis atrelados à inflação”, diz.

Busca por prêmio em crédito privado

Na Guide, ele afirma que notou maior interesse por NTN-Bs (Tesouro IPCA) e debêntures de infraestrutura. “A gente prefere o mercado de crédito privado que está com um prêmio maior do que deveria estar no preço”, afirma o economista.

Camilla Dolle, analista de renda fixa da XP Investimentos, também notou que houve uma procura maior do investidor por títulos privados de inflação. “A gente viu as emissões crescendo em títulos corporativos”, disse. Ela notou que o porcentual de debêntures indexadas ao IPCA aumentou de 45% em julho para 80,5% em agosto.

Ela também conta que no Tesouro Direto, as NTN-Bs (Tesouro IPCA) acabaram ficando mais baratas em agosto. “Teve um desvalorização no preço, isso é mais interessante para o investidor, pois o Tesouro IPCA paga a inflação mais o juro real no longo prazo”, afirma.

Números atualizados pela Anbima

Os dados divulgados na última quarta-feira, 9, pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) confirmam uma expansão em agosto das emissões de debêntures corporativas e de debêntures incentivadas de infraestrutura.

A emissão total de debêntures alcançou R$ 10,214 bilhões em agosto, quase o dobro do volume de R$ 5,908 bilhões emitido em julho. Em debêntures incentivadas de infraestrutura houve uma expansão de R$ 1,5 bilhão em agosto para um total de R$ 13,88 bilhões no acumulado de oito meses de 2020.

Ainda de acordo com os dados da Anbima, as pessoas físicas ficaram com 11,9% dos papéis incentivados nas ofertas primárias e os fundos de investimentos com 24,1% do volume emitido, 3,8% por outros investidores institucionais (fundos de pensão) e a maior fatia na mão da tesouraria dos bancos e de intermediários ligados à oferta (60,2%).

Alexandre Marques, gerente de produtos de renda fixa da Ágora Investimentos, também observou que o mercado secundário de crédito privado está “bem aquecido”, pois os papéis adquiridos pelas tesourarias dos bancos nas ofertas primárias são listados para as pessoas físicas nas plataformas. “O investidor está tomando mais risco em crédito privado”, afirma Marques.